"Dra., meu filho não para quieto. Será que é TDAH?" Essa é uma das perguntas mais frequentes que escuto no consultório. E eu entendo a angústia por trás dela — você quer entender o que está acontecendo e, principalmente, como ajudar.
Vamos conversar sobre isso com calma, sem rótulos e com muita ciência.
O que é o TDAH?
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição neurobiológica que afeta o funcionamento do cérebro em áreas relacionadas à atenção, controle de impulsos e regulação do comportamento.
Não é falta de educação. Não é preguiça. Não é culpa dos pais. É uma condição real, com base genética, que afeta cerca de 5 a 7% das crianças no mundo todo.
Os 3 tipos de TDAH
O TDAH não se manifesta igual em todas as crianças. Existem três apresentações:
1. Predominantemente desatento
Características:
- Dificuldade em prestar atenção em atividades (inclusive brincadeiras)
- Dificuldade em seguir instruções até o final
- Dificuldade em organizar tarefas e materiais
- Dificuldade em lembrar de compromissos e atividades do dia a dia
- Dificuldade em manter o foco quando algo não é muito estimulante
- Dificuldade em iniciar tarefas, mesmo quando sabe o que precisa fazer
- Parece não escutar quando alguém lhe dirige a palavra diretamente
- Perde objetos com frequência (brinquedos, material escolar, casacos)
- Esquecimentos frequentes em atividades do cotidiano
- Relutância em se envolver com atividades que exijam esforço mental prolongado (lição de casa, leitura, jogos com regras complexas)
Esse é o tipo que mais passa despercebido, especialmente em meninas, porque não causa tanta "bagunça" em sala de aula.
Em adolescentes, o subtipo desatento costuma se manifestar também como uma alteração na noção de tempo — o jovem subestima quanto tempo precisa para realizar tarefas, deixa tudo para a última hora e tem dificuldade crônica com prazos. Isso não é preguiça nem falta de interesse: é uma característica do TDAH que contribui diretamente para a procrastinação.
2. Predominantemente hiperativo-impulsivo
A criança:
- Não consegue ficar sentada por muito tempo
- Corre e escala em momentos inapropriados
- Tem dificuldade em seguir as regras da sala de aula
- Apresenta dificuldade para lidar com frustrações
- A hiperatividade não ocorre relacionada a uma tarefa específica, ou seja, não tem propósito e afeta negativamente o ambiente
- Fala excessivamente, interrompe conversas
- Possui dificuldade em manejar a raiva
- Podem se envolver mais frequentemente em brigas ou situações e esportes arriscados
- Tem dificuldade em esperar sua vez
- Dificuldade em manter atenção na leitura
- Age sem pensar nas consequências
- Fornece respostas rápidas a questões ou testes, levando frequentemente a erros
Na adolescência, a hiperatividade motora tende a reduzir, passando a ser percebida como uma sensação subjetiva de inquietude mental.
3. Combinado (desatento + hiperativo/impulsivo)
É a forma mais comum. A criança apresenta sintomas significativos de ambos os tipos.
Toda criança é agitada às vezes. O que diferencia o TDAH é a intensidade, frequência e impacto dos sintomas — eles precisam estar presentes em mais de um ambiente (casa e escola, por exemplo) e causar prejuízo funcional.
Sinais de alerta por faixa etária
Pré-escolares (3 a 5 anos)
- Agitação motora intensa, muito além do esperado para a idade
- Dificuldade em brincar em silêncio ou em atividades calmas
- Não consegue esperar a vez em brincadeiras simples
- Muda de atividade a cada poucos minutos
- Acidentes frequentes por impulsividade
Escolares (6 a 12 anos)
- Desempenho escolar abaixo do potencial
- Esquece materiais, tarefas e recados
- Dificuldade em completar atividades
- Parece "no mundo da lua" durante aulas
- Problemas de relacionamento com colegas
- Baixa autoestima e frustração frequente
Adolescentes (12 a 18 anos)
- Desorganização crônica
- Procrastinação intensa
- Dificuldade em planejar e cumprir prazos
- Impulsividade nas relações e decisões
- Ansiedade e/ou sintomas depressivos associados
Dica importante
O TDAH não "aparece" de repente. Os sinais estão presentes desde a infância, mas muitas vezes só são percebidos quando as demandas acadêmicas e sociais aumentam.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico do TDAH é fundamentalmente clínico — ou seja, é feito a partir de uma avaliação médica cuidadosa e detalhada. Não existe um exame de sangue ou de imagem que "confirme" TDAH.
A avaliação geralmente inclui:
- Anamnese detalhada — história completa da criança, desde a gestação
- Critérios diagnósticos — DSM-5
- Observação do comportamento — em consultório e em relatos de diferentes ambientes
- Avaliação neuropsicológica — quando necessária, para entender o perfil cognitivo
- Exclusão de outras causas — ansiedade, depressão, problemas de visão/audição, sono, etc.
O diagnóstico deve ser feito por médico com experiência em TDAH e neurodesenvolvimento. Esse é um dos focos da minha prática — se você suspeita de TDAH no seu filho, vamos conversar?
"Mas toda criança é assim..."
Essa frase é bem comum. E sim, toda criança é agitada, desatenta e impulsiva em algum grau — isso faz parte do desenvolvimento. Mas existem diferenças importantes:
| Comportamento típico | Possível TDAH |
|---|---|
| Agitado em situações estimulantes | Agitado o tempo todo, em qualquer contexto e ambiente |
| Esquece algo de vez em quando | Esquece coisas constantemente |
| Impulsivo em momentos de empolgação | Impulsivo mesmo em situações calmas |
| Melhora com lembretes e limites | Dificuldade persiste apesar de estratégias |
| Desempenho escolar compatível | Desempenho muito abaixo do potencial |
O que fazer se você suspeita de TDAH?
1. Não rotule — observe
Antes de qualquer coisa, observe seu filho em diferentes situações. Anote os comportamentos que te preocupam, quando acontecem, com que frequência e o impacto que causam.
2. Converse com a escola
Peça um relato da professora sobre atenção, comportamento e desempenho. Compare com o que você observa em casa. A escala SNAP-IV ajuda a identificar os sintomas e pode ser preenchido por pais, professores e cuidadores das crianças e adolescentes com suspeita de TDAH.
3. Procure avaliação profissional
Agende uma consulta comigo para que eu possa avaliar o que está acontecendo. A avaliação leva tempo e é isso que garante um diagnóstico correto.
4. Não compare
Cada criança é única. Comparar seu filho com o primo, o vizinho ou o colega só gera ansiedade — para você e para ele.
Tratamento: o que funciona?
O tratamento do TDAH é multimodal, ou seja, combina diferentes estratégias:
Intervenções comportamentais
- Rotina estruturada e previsível
- Instruções claras e curtas
- Reforço positivo (elogiar o que faz certo, não só corrigir o errado)
- Organização visual (quadros, checklists, timers)
- Treino de habilidades sociais
Intervenção escolar
- Sentar mais perto da professora
- Avaliações com mais tempo
- Instruções divididas em etapas menores
- Ambiente com menos distrações
Medicação
Em muitos casos, a medicação é uma ferramenta importante e segura. Os medicamentos para TDAH, quando bem indicados, podem transformar a qualidade de vida da criança e da família.
A decisão sobre medicação deve ser individualizada e tomada em conjunto entre a família e o médico. Não existe uma resposta única — cada criança é avaliada no seu contexto.
Acompanhamento psicológico
Terapia cognitivo-comportamental ajuda a criança a desenvolver estratégias de organização, controle emocional e autoconhecimento.
O que você pode fazer em casa
- Estabeleça rotina: TDAH e rotina são grandes aliados. Use quadros visuais.
- Elogie o esforço: Não só o resultado. "Vi que você se esforçou muito para terminar a tarefa!"
- Seja paciente: Repetir instruções faz parte. Não é teimosia, é neurobiologia.
- Cuide de você também: Criar uma criança com TDAH pode exigir muito. Busque apoio.
- Informe-se: Quanto mais você entende o TDAH, melhor consegue ajudar seu filho.
Lembre-se
TDAH não é sentença. Com diagnóstico correto, tratamento adequado e uma família informada, crianças com TDAH podem — e vão — prosperar. Muitas pessoas brilhantes e bem-sucedidas têm TDAH.
Mitos que precisamos derrubar
- "TDAH não existe" — Existe, e é reconhecido pela OMS e por todas as principais sociedades médicas do mundo.
- "É culpa dos pais" — TDAH tem base genética. Não é causado por educação.
- "Remédio faz mal" — Quando bem indicado, o medicamento é seguro e precisa ser monitorado.
- "Passa com a idade" — Em muitos casos, os sintomas persistem na vida adulta. Tratar na infância melhora o prognóstico.
- "Basta ter disciplina" — Disciplina é importante, mas não resolve sozinha uma condição neurobiológica.
Se você reconheceu sinais de TDAH no seu filho, eu quero te ajudar. Vamos conversar sobre o que você está observando e traçar o melhor caminho juntos — com calma, sem pressa e sem julgamento.

Ficou com alguma dúvida?
Agende uma consulta e vamos conversar sobre o desenvolvimento do seu filho(a) com calma e carinho.
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