Semana passada, durante um atendimento, uma mãe me disse algo que ouço com muita frequência: "Dra. Amanda, meu filho de 7 anos não quer mais ir à escola. Toda manhã ele chora, diz que está com dor de barriga e implora para ficar em casa. Eu já levei no gastro, fiz exames, e está tudo normal. Será que é frescura?"
Não, não é frescura. E posso dizer que esse é um dos motivos mais comuns que me levam a investigar ansiedade infantil no consultório. Aquela dor de barriga real, aquele choro que parece desproporcional, aquela recusa que não faz sentido para os adultos — muitas vezes, é o corpo da criança expressando algo que ela ainda não tem palavras para dizer.
Neste artigo, vou te ajudar a entender o que é a ansiedade infantil, quando ela deixa de ser normal e passa a ser um problema, quais sinais observar em cada faixa etária e, principalmente, o que você pode fazer para ajudar seu filho.
O que é ansiedade infantil?
Antes de tudo, preciso te dizer algo importante: ansiedade faz parte da vida. É uma emoção natural, presente desde os primeiros meses de vida, e que tem uma função protetora. É a ansiedade que faz o bebê chorar quando a mãe se afasta, que faz a criança hesitar diante de um estranho, que faz o adolescente sentir frio na barriga antes de uma prova.
O problema começa quando essa ansiedade se torna desproporcional à situação, persistente e interfere no dia a dia da criança — na escola, nas amizades, no sono, na alimentação, na dinâmica familiar.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), transtornos de ansiedade afetam cerca de 5 a 10% das crianças e adolescentes no mundo. No Brasil, esses números vêm crescendo, especialmente após a pandemia.
A ansiedade infantil é um dos transtornos de saúde mental mais comuns na infância, e ao mesmo tempo um dos mais subdiagnosticados. Isso acontece porque, diferente dos adultos, as crianças raramente dizem "estou ansiosa". Elas expressam o sofrimento de outras formas — e é aí que a atenção dos pais faz toda a diferença.
Ansiedade normal versus ansiedade patológica
Entender essa diferença é fundamental para não minimizar o sofrimento da criança nem patologizar comportamentos esperados para a idade.
Ansiedade normal (esperada para a idade)
- Bebês (6 a 12 meses): Ansiedade de separação — chorar quando a mãe sai do campo de visão. É um marco do desenvolvimento.
- Crianças pequenas (2 a 4 anos): Medo do escuro, de trovões, de animais, de monstros. Faz parte da imaginação que floresce nessa fase.
- Pré-escolares (4 a 6 anos): Preocupação com a separação dos pais ao entrar na escola, medo de se machucar.
- Escolares (7 a 12 anos): Preocupação com notas, com a opinião dos colegas, com notícias que veem na TV.
- Adolescentes: Ansiedade social, preocupação com aparência, com o futuro, com pertencimento ao grupo.
Ansiedade patológica (que precisa de atenção)
A ansiedade se torna patológica quando:
- É intensa demais para a situação (pânico por separações breves, medo paralisante de coisas cotidianas)
- Persiste por semanas ou meses, sem melhora
- Interfere no funcionamento — a criança deixa de fazer atividades, de ir à escola, de brincar
- Causa sofrimento significativo para a criança e/ou para a família
- Gera sintomas físicos recorrentes sem causa orgânica identificada
Regra prática para pais
Pergunte-se: "Essa ansiedade está impedindo meu filho de viver a infância dele?" Se a resposta for sim — se ele deixou de brincar, de ir à escola, de dormir bem, de fazer amigos — é hora de buscar ajuda profissional.
Tipos de ansiedade na infância
Existem diferentes formas de ansiedade infantil, e uma criança pode apresentar mais de um tipo ao mesmo tempo. Vou explicar os principais.
1. Transtorno de ansiedade de separação
É o mais comum em crianças menores. A criança tem um medo intenso e desproporcional de se separar das figuras de apego (geralmente os pais). Ela pode se recusar a ir à escola, a dormir fora de casa, a ficar com outros cuidadores. Tem pesadelos sobre perder os pais e pode apresentar sintomas físicos nos momentos de separação.
2. Ansiedade social (fobia social)
A criança tem um medo intenso de situações sociais onde pode ser avaliada ou julgada. Ela evita falar em público, apresentar trabalhos, participar de festas. É diferente de timidez — na ansiedade social, o medo causa sofrimento real e limitação.
3. Transtorno de ansiedade generalizada (TAG)
A criança se preocupa excessivamente com tudo: com a saúde dos pais, com desastres naturais, com o desempenho escolar, com o futuro. São preocupações que vão muito além do que seria esperado para a idade. Essas crianças costumam ser muito perfeccionistas e ter dificuldade para relaxar.
4. Fobias específicas
Medo intenso e persistente de algo específico: animais, alturas, sangue, injeções, água, palhaços. O medo é tão forte que a criança evita completamente a situação e entra em pânico quando exposta.
5. Mutismo seletivo
A criança fala normalmente em casa, com a família, mas fica completamente muda em outros ambientes — na escola, com estranhos, em consultórios. Não é por escolha, é pela ansiedade que "trava" a fala.
Sinais de ansiedade infantil por faixa etária
Uma das maiores dificuldades é que a ansiedade na criança nem sempre se parece com a ansiedade do adulto. Vou detalhar os sinais para você conseguir observar melhor.
Em bebês e crianças pequenas (0 a 3 anos)
- Choro excessivo e difícil de consolar
- Irritabilidade intensa
- Dificuldade para dormir ou acordar muitas vezes à noite
- Apego extremo ao cuidador principal
- Recusa alimentar
- Regressão de marcos já conquistados (voltar a usar fralda, perder palavras)
Em pré-escolares (3 a 6 anos)
- Medo excessivo de situações novas
- Recusa em ir à escola com choro intenso
- Pesadelos frequentes
- Dores de barriga e de cabeça sem causa orgânica
- Comportamento "grudento" — não deixa o pai/mãe sair de perto
- Perguntas repetitivas sobre segurança ("Você vai me buscar?", "E se acontecer X?")
- Birras intensas antes de situações temidas
Em escolares (6 a 12 anos)
- Preocupação excessiva com provas, notas, desempenho
- Dificuldade de concentração (pode ser confundida com TDAH)
- Queixas físicas frequentes: dor de barriga, enjoo, dor de cabeça, especialmente em dias de escola
- Dificuldade para dormir sozinho
- Evitação de atividades sociais (festas, passeios, brincadeiras em grupo)
- Perfeccionismo extremo — refaz tarefas várias vezes, chora se erra
- Necessidade constante de aprovação e reasseguramento
Em adolescentes (12 a 18 anos)
- Isolamento social
- Queda no rendimento escolar
- Irritabilidade e explosões emocionais
- Uso excessivo de celular como forma de evitar interações presenciais
- Recusa em participar de atividades que antes gostava
- Queixas de falta de ar, coração acelerado, formigamentos
- Crises de choro sem motivo aparente
- Pensamentos catastróficos sobre o futuro
Atenção: muitos desses sinais se sobrepõem a outros quadros, como TDAH, depressão e até condições médicas. Por isso, a avaliação profissional é indispensável. Nunca tente diagnosticar sozinho(a).
Os sintomas físicos são reais
Esse é um ponto que faço questão de reforçar com todas as famílias que atendo: a dor de barriga da ansiedade é uma dor de barriga real. Não é invenção, não é manipulação, não é frescura.
Quando a criança está ansiosa, o corpo dela entra em modo de alerta. O sistema nervoso libera hormônios do estresse (cortisol, adrenalina) que causam sintomas físicos genuínos:
- Dor abdominal — o intestino é muito sensível ao estresse (eixo intestino-cérebro)
- Náuseas e vômitos
- Dor de cabeça — cefaleia tensional
- Taquicardia — coração acelerado
- Falta de ar — sensação de aperto no peito
- Sudorese — mãos suadas e frias
- Tensão muscular — dores no corpo
- Alterações do sono — dificuldade para adormecer, despertares noturnos, pesadelos
Se o seu filho tem queixas físicas recorrentes e os exames médicos estão normais, considere a possibilidade de que o corpo está expressando um sofrimento emocional.
O impacto na escola e na vida social
A ansiedade pode ter efeitos profundos no desenvolvimento da criança se não for identificada e tratada:
Na escola:
- Dificuldade de concentração e queda no rendimento
- Recusa escolar (um dos motivos mais comuns de absenteísmo)
- Dificuldade em apresentar trabalhos ou participar em sala
- Perfeccionismo que paralisa — a criança não entrega tarefas por medo de errar
Nas relações sociais:
- Dificuldade em fazer e manter amizades
- Evitação de festas, brincadeiras em grupo, atividades extracurriculares
- Dependência excessiva dos pais para situações cotidianas
Na dinâmica familiar:
- Rotina familiar gira em torno de evitar gatilhos da criança
- Conflitos entre os pais sobre como lidar
- Irmãos que se sentem negligenciados
- Pais exaustos emocionalmente
O que os pais podem fazer em casa
Enquanto pais, vocês são a rede de segurança mais importante que a criança tem. Algumas estratégias podem fazer muita diferença:
1. Valide os sentimentos
Nunca diga "isso não é nada", "para de frescura" ou "não tem motivo para ter medo". Em vez disso, tente: "Eu vejo que você está com medo. Isso deve ser muito difícil. Eu estou aqui com você."
2. Não alimente a evitação
É natural querer proteger o filho do desconforto, mas permitir que ele evite tudo o que causa ansiedade só fortalece o ciclo. A estratégia é a exposição gradual — ajudar a criança a enfrentar os medos aos poucos, com apoio.
3. Ensine técnicas de regulação emocional
- Respiração diafragmática: Ensine a criança a "cheirar a flor" (inspirar pelo nariz) e "assoprar a vela" (expirar pela boca).
- Técnica do 5-4-3-2-1: Nomear 5 coisas que vê, 4 que toca, 3 que ouve, 2 que cheira e 1 que saboreia. Ajuda a ancorar no presente.
- Caixa da preocupação: Uma caixa onde a criança "guarda" suas preocupações escritas em papel antes de dormir.
4. Crie rotinas previsíveis
Crianças ansiosas se beneficiam muito de rotinas. Saber o que vai acontecer reduz a incerteza e, consequentemente, a ansiedade. Use quadros visuais de rotina para crianças menores.
5. Cuide da sua própria ansiedade
Crianças são esponjas emocionais. Se você está constantemente preocupado(a), estressado(a), ansioso(a), seu filho percebe — mesmo que você não diga nada. Cuidar da sua saúde mental é cuidar da saúde mental do seu filho também.
6. Modele como lidar com a ansiedade
Diga em voz alta: "Estou um pouco nervosa com essa reunião, mas vou respirar fundo e vai ficar tudo bem." Isso ensina à criança que sentir ansiedade é normal E que existem formas de lidar com ela.
Evite essas frases
- "Não tem nada para ter medo" — invalida o sentimento
- "Você é grande demais para isso" — gera vergonha
- "Se você não for, vai ficar de castigo" — punir a ansiedade piora o quadro
- "Eu também tenho medo e não consigo lidar" — sobrecarrega a criança com a sua angústia
Quando procurar ajuda profissional
Procure um profissional quando:
- Os sintomas persistem por mais de 4 semanas
- A ansiedade interfere significativamente na rotina (escola, sono, alimentação, relações)
- A criança tem sofrimento intenso e frequente
- Vocês, como família, não estão conseguindo manejar sozinhos
- A criança apresenta sintomas físicos recorrentes sem causa orgânica
- Há recusa escolar consistente
- Você percebe regressão no desenvolvimento
O primeiro passo é agendar uma consulta comigo. Posso avaliar o quadro de forma global, entender o que está acontecendo e, se necessário, encaminhar para um psicólogo infantil para acompanhamento conjunto.
Como é o tratamento da ansiedade infantil
O tratamento da ansiedade na infância é, na maioria dos casos, muito eficaz. As principais abordagens são:
Psicoterapia
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a abordagem com mais evidência científica para ansiedade infantil. Ela ensina a criança a identificar pensamentos ansiosos, questionar se eles são realistas e desenvolver estratégias de enfrentamento. Geralmente envolve exposição gradual às situações temidas.
A terapia também trabalha com os pais, ensinando a manejar as situações do dia a dia e a não reforçar inadvertidamente os comportamentos de evitação.
Orientação parental
Em muitos casos, especialmente com crianças menores, a orientação aos pais é tão importante quanto o trabalho direto com a criança. Aprender a responder de forma adequada aos comportamentos ansiosos muda significativamente o prognóstico.
Medicação
A medicação pode ser necessária em casos moderados a graves, quando a ansiedade é tão intensa que a criança não consegue se engajar na psicoterapia, ou quando há grande prejuízo funcional. Os medicamentos mais utilizados são os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), que são seguros e eficazes na população pediátrica quando prescritos e acompanhados adequadamente.
A decisão sobre medicação é sempre individualizada e discutida com a família. Não existe receita de bolo. O que funciona para uma criança pode não ser o ideal para outra. O importante é que haja acompanhamento médico regular.
O papel da escola
A escola é uma parceira fundamental no tratamento. É importante que os professores sejam informados (com a autorização da família) para que possam:
- Adaptar situações que geram muita ansiedade (apresentações, por exemplo)
- Oferecer um local seguro se a criança precisar se acalmar
- Observar e comunicar mudanças de comportamento
- Evitar exposição desnecessária perante os colegas
Fatores de risco e proteção
Fatores de risco
- Genéticos: Pais com transtornos de ansiedade aumentam o risco
- Temperamento: Crianças com temperamento inibido são mais vulneráveis
- Experiências adversas: Perdas, mudanças, conflitos familiares, bullying
- Superproteção parental: Não permitir que a criança enfrente desafios
- Exposição excessiva a notícias e telas
Fatores de proteção
- Vínculo seguro com os cuidadores
- Ambiente familiar estável e acolhedor
- Habilidades de regulação emocional
- Rede de apoio social (amigos, família estendida, escola)
- Atividade física regular
- Rotinas previsíveis
Ansiedade infantil e o mundo atual
Não podemos falar de ansiedade infantil sem falar do contexto em que nossas crianças estão crescendo. O acesso precoce a telas, o excesso de informação, a pressão por desempenho, a redução do tempo de brincar livre, a menor convivência comunitária — tudo isso contribui para o aumento dos quadros de ansiedade na infância.
Não se trata de ser contra a tecnologia ou de criar filhos dentro de uma bolha. Trata-se de oferecer equilíbrio: tempo livre para brincar, contato com a natureza, relações presenciais, momentos de tédio (sim, tédio é importante para o desenvolvimento), rotinas com limites claros e muito, muito afeto.
Se você chegou até aqui, provavelmente está preocupado(a) com o seu filho, e isso já diz muito sobre o tipo de pai ou mãe que você é: presente, atento(a) e disposto(a) a buscar ajuda. A ansiedade infantil tem tratamento, tem solução, e quanto mais cedo for identificada, melhor o prognóstico. Você não precisa passar por isso sozinho(a). Se quiser conversar sobre o que está observando no seu filho, estou aqui para ajudar.

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Agende uma consulta e vamos conversar sobre o desenvolvimento do seu filho(a) com calma e carinho.
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