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Dra. Amanda Laina
Pediatria Geral

Vitamina D para crianças: quando suplementar e quanto

Saiba quando e como suplementar vitamina D em crianças. Doses recomendadas pela SBP, sinais de deficiência, fontes alimentares e cuidados com o sol.

Dra. Amanda Laina
Dra. Amanda LainaMédica | CRM BA 37459
6 de março de 202612 min de leitura
Criança brincando ao sol em um jardim

Vitamina D para crianças: quando suplementar e quanto

Se eu pudesse escolher apenas um suplemento que praticamente toda criança precisa, seria a vitamina D. Na minha rotina como médica residente em Pediatria no Hospital São Rafael, esse é um dos assuntos que mais gera dúvidas nas consultas — e, infelizmente, também é um dos que mais encontro sendo conduzido de forma incorreta.

"Mas Dra., moramos em Salvador! Aqui tem sol o ano inteiro, precisa mesmo suplementar?"

Precisa sim. E eu vou explicar por quê.

O que a vitamina D faz no corpo da criança

A vitamina D não é apenas "a vitamina dos ossos", embora essa seja sua função mais conhecida. Ela age como um verdadeiro hormônio no organismo, participando de processos fundamentais:

  • Saúde óssea: regula a absorção de cálcio e fósforo no intestino, minerais essenciais para a formação e fortalecimento dos ossos e dentes. Sem vitamina D suficiente, o cálcio simplesmente não é absorvido direito.
  • Sistema imunológico: participa da regulação da resposta imune, ajudando o corpo a combater infecções e modular processos inflamatórios.
  • Desenvolvimento muscular: atua na função muscular adequada, prevenindo fraqueza e fadiga.
  • Sistema nervoso: estudos recentes mostram sua participação no neurodesenvolvimento e na proteção de funções cerebrais.

A deficiência grave de vitamina D pode causar raquitismo — uma condição em que os ossos ficam amolecidos e deformados. Embora raro hoje em dia, casos ainda acontecem, especialmente em bebês não suplementados.

Por que a deficiência é tão comum — mesmo no Brasil

Esse é o ponto que mais surpreende as famílias. O Brasil é um país tropical, com abundância de sol. Então como pode haver deficiência de vitamina D?

A resposta envolve vários fatores:

1. Bebês não devem tomar sol direto

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Sociedade Brasileira de Dermatologia são claras: bebês menores de 6 meses não devem ser expostos diretamente ao sol. A pele deles é muito fina e sensível, com risco real de queimaduras e danos futuros. E mesmo após 6 meses, a exposição deve ser controlada.

2. O estilo de vida moderno

Crianças passam muito mais tempo em ambientes fechados do que há algumas décadas. Escolas, apartamentos, shopping centers, telas — tudo isso reduz a exposição solar natural.

3. O protetor solar (que é necessário!) bloqueia a síntese

O uso correto de protetor solar — que eu recomendo fortemente — reduz em até 95% a produção de vitamina D pela pele. É um paradoxo: precisamos proteger a pele, mas isso diminui a produção natural da vitamina.

4. Cor da pele

Peles mais escuras, ricas em melanina, produzem vitamina D mais lentamente quando expostas ao sol. No Brasil, com sua enorme diversidade, isso é especialmente relevante.

5. O leite materno não fornece o suficiente

Isso é importante: o leite materno é o alimento perfeito para o bebê, mas possui baixa concentração de vitamina D. Isso não é um defeito — é simplesmente que historicamente os bebês ficavam muito mais expostos ao sol. Como hoje não ficam, a suplementação complementa o que a natureza esperava que o sol fornecesse.

Estudos brasileiros mostram que 30% a 60% das crianças e adolescentes apresentam níveis insuficientes de vitamina D, mesmo em regiões ensolaradas como o Nordeste. Não assuma que o sol resolve tudo.

Recomendações da SBP por idade

As recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria são bastante claras e eu sigo fielmente na minha prática:

Recém-nascidos a termo (0 a 12 meses)

  • Dose: 400 UI por dia
  • Início: a partir da primeira semana de vida
  • Duração: até completar 12 meses
  • Vale para bebês em aleitamento materno exclusivo, misto ou fórmula (mesmo que a fórmula seja enriquecida)

Crianças de 1 a 2 anos

  • Dose: 600 UI por dia
  • Manter durante todo o período, independente da alimentação

Crianças acima de 2 anos e adolescentes

  • Dose: 600 UI por dia como manutenção
  • O médico pode ajustar conforme avaliação individual, exposição solar e níveis séricos
  • Em casos de deficiência documentada, doses terapêuticas maiores podem ser necessárias (sempre sob orientação médica)

Quando começar a suplementação

A recomendação é iniciar já na primeira semana de vida, independente do tipo de alimentação. Muitas famílias acham que devem esperar a primeira consulta com o pediatra — se essa consulta demorar, comece antes. Converse com o médico da maternidade ou entre em contato com seu pediatra por mensagem.

Prematuros: atenção especial

Bebês prematuros têm necessidades específicas. A dose costuma ser a mesma (400 UI/dia), mas pode precisar de ajustes dependendo do peso ao nascer e de outras suplementações em curso. Além disso, prematuros frequentemente precisam também de cálcio e fósforo adicionais.

Como dar a vitamina D para o bebê

A suplementação é feita através de gotas, administradas diretamente na boca do bebê. Algumas orientações práticas:

  • Horário: pode ser dado em qualquer horário, mas eu sugiro fixar um momento do dia para criar o hábito (por exemplo, junto ao banho de sol ou após a primeira mamada da manhã).
  • Com ou sem alimento: a vitamina D é lipossolúvel, então sua absorção melhora quando ingerida com alguma gordura. O leite materno já cumpre esse papel.
  • Preparação: existem várias marcas no mercado. A maioria vem em concentração de 200 UI por gota, então a dose padrão para bebês seria de 2 gotas por dia. Mas sempre confira a concentração do produto que você comprou.
  • Não misture no leite da mamadeira: a criança pode não tomar todo o leite e perder parte da dose. Prefira dar direto na boca.

Cuidado com a concentração! Existem produtos com 200 UI/gota, 500 UI/gota e até 1000 UI/gota. Uma gota a mais de um produto concentrado pode significar o dobro da dose recomendada. Sempre leia a embalagem e confirme com seu médico.

Fontes alimentares de vitamina D

Embora a suplementação seja a forma mais confiável de garantir níveis adequados, alguns alimentos contribuem:

  • Peixes gordurosos: salmão, sardinha, atum, cavala — são as melhores fontes naturais
  • Gema de ovo: uma gema contém cerca de 20-40 UI
  • Fígado bovino: fonte modesta
  • Leite e derivados enriquecidos: verificar no rótulo se há adição de vitamina D
  • Cereais fortificados: algumas marcas adicionam vitamina D
  • Cogumelos expostos ao sol: fonte vegetal, mas em quantidades pequenas

A verdade é que é muito difícil atingir as necessidades diárias apenas pela alimentação, especialmente em crianças pequenas. Um filé de salmão tem cerca de 400 UI — imagine pedir para um bebê de 8 meses comer isso todos os dias.

Alimentação complementa, não substitui

Ofereça alimentos ricos em vitamina D como parte de uma dieta equilibrada, mas não conte apenas com eles. A suplementação continua sendo necessária na maioria dos casos.

Sol: aliado importante, mas com ressalvas

A exposição solar é a forma mais natural de obter vitamina D. Quando os raios UVB atingem a pele, desencadeiam a produção endógena da vitamina. Porém, algumas orientações são fundamentais:

Para bebês menores de 6 meses

  • Não exponha diretamente ao sol. O risco de dano à pele supera qualquer benefício.
  • Passeios ao ar livre à sombra são ótimos para o desenvolvimento, mas não contam para produção de vitamina D.

Para crianças acima de 6 meses

  • 10 a 15 minutos de exposição solar diária em braços e pernas, sem protetor, nos horários de menor intensidade (antes das 10h ou após as 16h)
  • Após esse período, aplicar protetor solar
  • Em dias nublados, a produção é significativamente menor
  • Vidro bloqueia raios UVB — sol pela janela do carro ou apartamento não produz vitamina D

Fatores que influenciam

  • Latitude: quanto mais ao sul do Brasil, menor a produção nos meses de inverno
  • Estação do ano: no inverno, mesmo no Nordeste, a angulação dos raios é menos favorável
  • Poluição: cidades muito poluídas podem ter até 50% menos radiação UVB efetiva
  • Vestimentas: quanto mais roupa, menos pele exposta, menos produção

Sinais de deficiência de vitamina D

A deficiência leve a moderada costuma ser silenciosa — não apresenta sintomas evidentes, o que a torna perigosa. Quando há sintomas, podem incluir:

  • Atraso no crescimento ou ganho de peso insuficiente
  • Fraqueza muscular, dificuldade para caminhar ou subir escadas
  • Dores ósseas ou musculares (em crianças maiores que conseguem verbalizar)
  • Irritabilidade sem causa aparente
  • Infecções respiratórias de repetição
  • Atraso na erupção dentária
  • Em casos graves: deformidades ósseas (pernas arqueadas, alargamento dos punhos)

Quando pedir exame de vitamina D

A dosagem de 25-hidroxivitamina D no sangue é o exame padrão. Porém, não é necessário pedir para todas as crianças rotineiramente. A SBP recomenda dosagem nos seguintes casos:

  • Crianças com fatores de risco para deficiência (prematuridade, pele escura, pouca exposição solar, uso de anticonvulsivantes)
  • Suspeita clínica de raquitismo
  • Doenças que afetam a absorção intestinal (doença celíaca, fibrose cística, doença inflamatória intestinal)
  • Obesidade infantil (a vitamina D fica "sequestrada" no tecido adiposo)
  • Doenças renais ou hepáticas
  • Crianças em uso de corticoides prolongado

Valores de referência

  • Suficiente: acima de 30 ng/mL
  • Insuficiente: entre 20 e 30 ng/mL
  • Deficiente: abaixo de 20 ng/mL

Os riscos da suplementação excessiva

Aqui vai um alerta importante: mais não é melhor. A vitamina D é lipossolúvel, ou seja, se acumula no corpo e o excesso não é eliminado facilmente pela urina (diferente da vitamina C, por exemplo).

A hipervitaminose D pode causar:

  • Náuseas, vômitos, falta de apetite
  • Aumento do cálcio no sangue (hipercalcemia)
  • Pedras nos rins
  • Calcificação de tecidos moles
  • Em casos graves, comprometimento renal

Nunca aumente a dose de vitamina D por conta própria. Aquela vizinha que disse que dá "10 gotas por dia porque o filho fica mais forte" está colocando a saúde da criança em risco. A dose deve ser orientada pelo médico.

Vitamina D e ferro: a dupla essencial

Na prática do dia a dia, costumo prescrever vitamina D e ferro juntos nos primeiros anos de vida. São as duas suplementações mais universais na pediatria:

  • Vitamina D: desde a primeira semana de vida
  • Ferro profilático: a partir dos 3 meses para bebês em aleitamento materno exclusivo (ou a partir da introdução alimentar em outras situações)

Ambas são fundamentais e não interferem uma na absorção da outra. Podem ser dadas no mesmo horário, sem problemas.

Organize a rotina

Deixe os frascos de vitamina D e ferro no mesmo local — lado do berço, da cadeirinha de alimentação, onde funcionar melhor para sua família. Vincular a um momento fixo do dia (como logo após acordar) ajuda a não esquecer.

Mitos sobre vitamina D em crianças

"Se toma sol todo dia, não precisa suplementar"

Mito. A produção solar depende de tantas variáveis (horário, latitude, cor da pele, roupa, protetor solar) que é impossível garantir que está sendo suficiente. A suplementação é a forma segura de garantir.

"Fórmula já vem com vitamina D, não precisa dar a mais"

Depende, mas geralmente precisa sim. Mesmo as fórmulas enriquecidas costumam fornecer menos do que a criança precisa, especialmente se ela não tomar o volume total indicado. A SBP recomenda suplementar mesmo em uso de fórmula.

"Vitamina D dá alergia"

Mito. A vitamina D em si não causa alergia. O que pode acontecer é reação a algum excipiente da formulação (como conservantes ou aromatizantes). Se isso ocorrer, basta trocar a marca.

"Pode dar vitamina D junto com o leite na mamadeira"

Não recomendo. Se o bebê não tomar todo o leite, perde parte da dose. E dependendo da temperatura do leite, pode haver degradação parcial da vitamina. Sempre direto na boca.

"Só precisa suplementar no inverno"

Mito no Brasil. A recomendação é de suplementação contínua, o ano todo, pelo menos nos dois primeiros anos. Após essa idade, o médico avalia individualmente.

"Vitamina D ajuda a criança a dormir melhor"

Parcialmente verdadeiro. Estudos sugerem uma associação entre níveis adequados de vitamina D e qualidade do sono, mas ela não é um "remédio para dormir". Não aumente a dose esperando esse efeito.

Qual a melhor forma de vitamina D?

Existem duas formas disponíveis:

  • Vitamina D3 (colecalciferol): é a forma preferida, mais eficiente em elevar e manter os níveis sanguíneos. É a que eu prescrevo.
  • Vitamina D2 (ergocalciferol): de origem vegetal, menos eficiente. Pode ser uma opção para famílias veganas, mas com acompanhamento médico mais próximo.

As apresentações incluem gotas oleosas, gotas aquosas e cápsulas mastigáveis (para crianças maiores). Para bebês, as gotas são a única opção prática.

Resumo prático para pais e mães

Para facilitar, aqui vai o que você precisa lembrar:

  1. Comece na primeira semana de vida — 400 UI/dia
  2. Após 1 ano — passe para 600 UI/dia
  3. Dê direto na boca, não na mamadeira
  4. Confira a concentração do produto em UI/gota
  5. Mantenha a suplementação o ano todo, independente do sol
  6. Não aumente a dose por conta própria — mais pode ser perigoso
  7. Sol ajuda, mas não substitui a suplementação
  8. Leve às consultas de rotina — o médico avalia a necessidade de exames

A vitamina D é um daqueles cuidados simples que fazem uma diferença enorme na saúde do seu filho a longo prazo. Suplementar é fácil, barato e seguro quando feito na dose certa. Se você tem dúvidas sobre a suplementação do seu filho, sobre a marca ideal ou sobre a necessidade de dosar os níveis séricos, estou aqui para ajudar.

Dra. Amanda Laina

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