Poucas coisas geram tantas dúvidas quanto o calendário de vacinação. Toda semana ouço perguntas como: "Dra. Amanda, meu filho está com o calendário atrasado, e agora?", "Preciso dar a vacina da clínica particular ou a do posto é igual?", "Meu bebê ficou com febre depois da vacina, é normal?". São dúvidas legítimas, e eu entendo que o volume de informações (e de desinformação) pode ser confuso.
Por isso, preparei este guia completo sobre o calendário de vacinação 2026. Vou explicar cada vacina por faixa etária, o que ela protege, quais são as recomendações do Programa Nacional de Imunizações (PNI), o que a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomendam além do calendário público, e responder às dúvidas mais comuns que recebo no consultório.
Por que vacinar é tão importante
Vacinar é, sem dúvida, uma das medidas de saúde pública mais eficazes já criadas. As vacinas são responsáveis pela erradicação da varíola, pela quase eliminação da poliomielite e pela redução drástica de doenças como sarampo, difteria, tétano e coqueluche.
Quando seu filho é vacinado, ele não está protegido apenas individualmente. Ele contribui para a imunidade coletiva — quando a maioria da população está vacinada, mesmo quem não pode ser vacinado (recém-nascidos, imunossuprimidos) fica indiretamente protegido.
A queda nas coberturas vacinais nos últimos anos é preocupante. O Brasil já viu o retorno do sarampo e enfrenta risco de reintrodução da poliomielite. Manter o calendário em dia não é apenas uma escolha individual — é um ato de responsabilidade coletiva.
Calendário de vacinação 2026: vacinas por idade
A seguir, apresento as vacinas recomendadas por faixa etária, incluindo tanto as disponíveis no SUS (PNI) quanto as recomendações complementares da SBIm/SBP disponíveis em clínicas privadas.
Ao nascer
| Vacina | Protege contra | Doses | Disponível no SUS |
|---|---|---|---|
| BCG | Formas graves de tuberculose (meníngea e miliar) | Dose única | Sim |
| Hepatite B | Hepatite B | 1ª dose (nas primeiras 12h de vida) | Sim |
A BCG é aquela vacina que deixa a marquinha no braço direito do bebê. Deve ser aplicada o mais cedo possível, preferencialmente ainda na maternidade. A vacina contra hepatite B também deve ser aplicada nas primeiras 12 horas de vida.
2 meses
| Vacina | Protege contra | Doses | Disponível no SUS |
|---|---|---|---|
| Pentavalente (DTPa/DTPw + Hib + HB) | Difteria, tétano, coqueluche, Haemophilus influenzae b, hepatite B | 1ª dose | Sim (DTPw); DTPa em clínicas |
| VIP (poliomielite inativada) | Poliomielite (paralisia infantil) | 1ª dose | Sim |
| Pneumocócica 13 ou 15-valente | Doenças pneumocócicas (pneumonia, meningite, otite) | 1ª dose | Sim (10v no SUS); 13v/15v em clínicas |
| Rotavírus | Gastroenterite por rotavírus | 1ª dose | Sim (monovalente); pentavalente em clínicas |
| Meningocócica B | Doença meningocócica tipo B | 1ª dose | Não (clínicas privadas) |
DTPw versus DTPa: qual a diferença?
Ambas protegem contra difteria, tétano e coqueluche. A DTPw (célula inteira), disponível no SUS, é eficaz, mas causa mais reações (febre, irritabilidade). A DTPa (acelular), disponível em clínicas, causa significativamente menos efeitos colaterais. A proteção é equivalente. Se possível, a SBIm recomenda a DTPa, mas a DTPw do SUS é uma excelente vacina.
3 meses
| Vacina | Protege contra | Doses | Disponível no SUS |
|---|---|---|---|
| Meningocócica C ou ACWY | Doença meningocócica | 1ª dose | Sim (MenC no SUS); ACWY em clínicas |
A SBIm recomenda preferencialmente a vacina meningocócica ACWY em vez da meningocócica C isolada, pois oferece proteção mais ampla contra 4 sorogrupos.
4 meses
Repetição das vacinas de 2 meses (2ª dose):
| Vacina | Doses |
|---|---|
| Pentavalente | 2ª dose |
| VIP | 2ª dose |
| Pneumocócica | 2ª dose |
| Rotavírus | 2ª dose |
| Meningocócica B | 2ª dose (se iniciou aos 2 meses) |
5 meses
| Vacina | Protege contra | Doses | Disponível no SUS |
|---|---|---|---|
| Meningocócica C ou ACWY | Doença meningocócica | 2ª dose | Sim (MenC) |
6 meses
| Vacina | Doses | Observação |
|---|---|---|
| Pentavalente | 3ª dose | Completa o esquema primário |
| VIP | 3ª dose | |
| Rotavírus pentavalente | 3ª dose | Apenas se usar a vacina pentavalente (clínicas) |
| Influenza (gripe) | 1ª dose | A partir dos 6 meses, anualmente |
A vacina da gripe (influenza) é recomendada anualmente para todas as crianças de 6 meses a 6 anos. Na primeira vez, são necessárias 2 doses com intervalo de 30 dias. Nos anos seguintes, dose única anual. O SUS oferece durante as campanhas; nas clínicas, está disponível o ano todo.
9 meses
| Vacina | Protege contra | Doses | Disponível no SUS |
|---|---|---|---|
| Febre Amarela | Febre amarela | Dose única | Sim |
12 meses (1 ano)
| Vacina | Doses | Observação |
|---|---|---|
| Tríplice viral (SCR) | 1ª dose | Sarampo, caxumba, rubéola |
| Pneumocócica | Reforço | |
| Meningocócica C ou ACWY | Reforço | |
| Hepatite A | 1ª dose | |
| Varicela | 1ª dose | Catapora (SBIm recomenda tetra viral) |
| Meningocócica B | Reforço | Se iniciou esquema |
A SBIm recomenda utilizar a tetra viral (sarampo, caxumba, rubéola + varicela) em vez de aplicar tríplice viral e varicela separadamente, quando disponível.
15 meses
| Vacina | Doses | Observação |
|---|---|---|
| DTP | 1º reforço | Difteria, tétano, coqueluche |
| VOP ou VIP | 1º reforço | Poliomielite |
| Tetra viral ou Tríplice viral + Varicela | 2ª dose | |
| Hepatite A | 2ª dose | SBIm recomenda; SUS dá dose única |
4 a 6 anos
| Vacina | Doses | Observação |
|---|---|---|
| DTP | 2º reforço | |
| VOP ou VIP | 2º reforço | |
| Varicela | 2ª dose | Se não fez aos 15 meses |
9 a 14 anos
| Vacina | Doses | Observação |
|---|---|---|
| HPV | 2 doses (intervalo de 6 meses) | Meninas e meninos — previne câncer de colo de útero, pênis, ânus, orofaringe |
| Meningocócica ACWY | Reforço | Disponível no SUS para adolescentes |
| Dengue | Esquema conforme indicação | Para quem já teve dengue confirmada (Qdenga) |
A vacina contra o HPV é uma das mais importantes da adolescência. O HPV é responsável por praticamente todos os casos de câncer de colo de útero, além de outros tipos de câncer. A vacina é segura, eficaz e disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Quanto mais cedo, melhor a resposta imunológica.
Vacinas complementares recomendadas pela SBIm
Além do calendário do PNI (SUS), a SBIm e a SBP recomendam algumas vacinas que não estão disponíveis na rede pública, mas oferecem proteção adicional importante:
| Vacina | Faixa etária | Por que considerar |
|---|---|---|
| Meningocócica B | A partir de 2 meses | Proteção contra o sorogrupo B, responsável por muitos casos de meningite |
| Meningocócica ACWY (em vez de C) | A partir de 3 meses | Proteção mais ampla contra 4 sorogrupos |
| Pneumocócica 13 ou 15-valente (em vez de 10v) | A partir de 2 meses | Proteção contra mais sorotipos |
| DTPa (em vez de DTPw) | A partir de 2 meses | Menos efeitos colaterais |
| Hexavalente | A partir de 2 meses | Substitui pentavalente + VIP em uma única aplicação |
| Hepatite A (2ª dose) | 18 meses | SUS dá dose única; SBIm recomenda 2 doses |
Posso misturar vacinas do SUS com as da clínica?
Sim, sem nenhum problema. Você pode, por exemplo, fazer a maioria das vacinas no posto de saúde e complementar com a meningocócica B na clínica particular. O importante é que o calendário fique completo. Converse com o pediatra do seu filho para montar o melhor esquema para a sua realidade.
Reações vacinais: o que esperar
É completamente normal que as vacinas causem algumas reações. Isso é, na verdade, um sinal de que o sistema imunológico está respondendo. As reações mais comuns são:
Reações locais (no local da aplicação):
- Dor, vermelhidão e inchaço — comuns, duram 1 a 3 dias
- Nódulo endurecido — pode durar algumas semanas
Reações sistêmicas:
- Febre baixa a moderada (até 38,5°C) — especialmente após pentavalente e pneumocócica
- Irritabilidade e choro
- Sonolência
- Diminuição do apetite
- Diarreia leve (após rotavírus)
O que fazer:
- Febre: Paracetamol ou dipirona na dose orientada pelo pediatra. Não use ibuprofeno em menores de 6 meses.
- Dor local: Compressas frias (não geladas) podem ajudar.
- Irritabilidade: Ofereça colo, amamentação e conforto.
Procure atendimento médico se a febre for acima de 39,5°C, se durar mais de 48 horas, se houver choro inconsolável por mais de 3 horas, convulsões, ou reação alérgica grave (inchaço no rosto, dificuldade para respirar).
Mitos sobre vacinação — vamos esclarecer
"Vacinas causam autismo"
Falso. Esse mito surgiu de um estudo fraudulento publicado em 1998, cujo autor teve o registro médico cassado. Dezenas de estudos com milhões de crianças comprovaram que não existe nenhuma relação entre vacinas e autismo.
"Muitas vacinas ao mesmo tempo sobrecarregam o sistema imunológico"
Falso. O sistema imunológico do bebê é capaz de responder a milhares de antígenos simultaneamente. As vacinas representam uma fração mínima desse potencial. Atrasar vacinas para "dar menos de uma vez" só expõe a criança por mais tempo sem proteção.
"Se a doença não existe mais, não precisa vacinar"
Falso. As doenças deixaram de circular justamente por causa das vacinas. Quando a cobertura vacinal cai, as doenças voltam — como aconteceu com o sarampo no Brasil entre 2018 e 2019.
"Vacinas enfraquecem a imunidade natural"
Falso. Vacinas treinam o sistema imunológico sem causar a doença. A "imunidade natural" muitas vezes vem ao custo de complicações graves, hospitalizações e até óbito.
"É melhor esperar o bebê crescer um pouco antes de vacinar"
Falso. O calendário vacinal é pensado para proteger exatamente no período de maior vulnerabilidade. Atrasar vacinas aumenta o risco da criança contrair doenças preveníveis.
Calendário atrasado: o que fazer
Se o calendário do seu filho está atrasado, não se preocupe — dá para resolver. Eis o que você precisa saber:
- Nunca é preciso recomeçar o esquema do zero. Todas as doses já aplicadas contam.
- O pediatra vai avaliar quais vacinas estão pendentes e montar um plano de atualização.
- É possível aplicar várias vacinas na mesma visita para acelerar a atualização.
- Algumas vacinas têm idade máxima para aplicação (rotavírus, por exemplo, não pode ser dada após 8 meses na versão monovalente).
Dica prática
Leve sempre a caderneta de vacinação nas consultas pediátricas. Se perdeu a caderneta, a Unidade Básica de Saúde pode ter o registro do seu filho. Algumas clínicas privadas também mantêm registros digitais.
Vacinação em prematuros
Bebês prematuros devem seguir o calendário de acordo com a idade cronológica, não a idade corrigida. Ou seja, um bebê que nasceu com 32 semanas e tem 2 meses de vida deve tomar as vacinas de 2 meses normalmente.
Algumas particularidades:
- BCG: Aplicar quando o bebê atingir 2 kg
- Hepatite B: Aplicar ao nascer, independente do peso. Prematuros com menos de 2 kg devem receber uma dose adicional (esquema de 4 doses)
- Palivizumabe: Não é uma vacina, mas um anticorpo monoclonal contra o vírus sincicial respiratório (VSR), indicado para prematuros de alto risco durante a sazonalidade
- A vacina da gripe é especialmente importante para prematuros, que têm mais risco de complicações respiratórias
Se o seu bebê é prematuro, a vacinação é ainda mais importante. Prematuros têm um sistema imunológico mais imaturo e são mais vulneráveis a infecções. Não atrase o calendário — converse com o neonatologista ou pediatra para garantir que tudo esteja em dia.
Vacina da dengue: o que mudou
A vacina Qdenga (TAK-003) está disponível no Brasil e foi incorporada ao SUS para crianças de 10 a 14 anos em regiões endêmicas. Em clínicas privadas, está disponível a partir de 4 anos.
Pontos importantes:
- São 2 doses com intervalo de 3 meses
- Pode ser aplicada em pessoas que já tiveram ou não tiveram dengue (diferente da Dengvaxia, que exigia infecção prévia)
- Recomendada em áreas com circulação do vírus
Como organizar o calendário vacinal
Algumas dicas práticas para não se perder:
- Fotografe a caderneta de vacinação e guarde no celular
- Anote as próximas datas no calendário do celular com lembrete
- Pergunte ao pediatra em toda consulta se há alguma vacina pendente
- Conheça o calendário do SUS da sua cidade — algumas vacinas têm campanhas sazonais
- Não espere a campanha para vacinar — se está na hora, vá à UBS
Sei que o calendário vacinal pode parecer complexo, e é natural ter dúvidas. O mais importante é que você entenda que cada vacina foi pensada para proteger seu filho de doenças que podem ser graves. Não deixe o medo de reações (que são geralmente leves e passageiras) superar a proteção que as vacinas oferecem. Se você tem dúvidas sobre o calendário do seu filho, se precisa atualizar vacinas atrasadas ou se quer discutir quais vacinas complementares são indicadas, entre em contato comigo. Juntos, vamos montar o melhor esquema de proteção para o seu pequeno.

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